Telúricas caiçaras
A simbiose entre o ser e o meio nas comunidades costeiras
Qual é a relação que se estabelece com um território no qual se está, onde se vive? Melhor dizendo, quanto do ser é expresso nesse espaço e quanto esse espaço influencia, molda o ser?
Essas perguntas podem ser postas diante de uma série de cenários, das análises do impacto humano sobre a natureza no planeta como um todo à mudança de uma família do ambiente urbano para uma paisagem rural. Aliás, já discutimos aqui que o rural não se trata apenas das regiões interiores, mas também daquilo que se distingue da cidade sem precisar se apartar do litoral. E é justamente sobre a vida à beira-mar, da vida caiçara, da relação entre os sujeitos que no Brasil habitam às margens dessa força da natureza, do maior ecossistema do mundo, cujas profundezas conhecemos menos que a nossa galáxia, que queremos discutir nesta edição do Correio do Arado.
Antes, vale dizer que as reflexões sobre o ser humano e o meio perpassam várias áreas das Ciências Humanas e Sociais há tempos, e, especialmente no Brasil, país enorme de natureza diversa e imponente, elas floresceram de maneiras diferentes. De um lado, é possível citar Gilberto Freyre, com a sua proposta de uma Tropicologia, campo com pretensão científica interessado de modo abrangente no estudo das populações, culturas, usos e costumes, incluindo sempre um critério ecológico, para que sejam consideradas as terras, os solos, a vegetação, os animais, os meios de utilidade econômica do espaço natural em áreas tropicais de várias partes do mundo etc. Uma abordagem multidisciplinar a partir da Sociologia e da Antropologia. Ou seja, Freyre buscava aliar o humano ao ambiental, ou o cultural ao ecológico, e, assim, fundar uma área de conhecimento “teluricamente” brasileira, como ele mesmo dizia.
De outro lado, podemos citar análises etnológicas que, respeitando os princípios analíticos que levam em conta o meio de inserção de uma comunidade, pretendiam-se menos abrangentes, mais localizadas, com enfoque nas relações entre meio, trabalho e cultura – e que acabaram por se debruçar sobre a vida caiçara –, como os estudos de Gioconda Mussolini, Carlos Borges Schmidt e Antonio Carlos Diegues.
O equilíbrio entre o ser e o meio no litoral é preciso e surpreendente. Referimo-nos, claro, ao ser “tradicional”, àquele que vive numa certa simbiose construída junto ao mar – e não apesar dele – ao longo de gerações, figura essa que também foi, na maioria das vezes, o personagem privilegiado pelos três pesquisadores citados, em seus respectivos estudos. Esse equilíbrio não é simples e nem óbvio. O povoamento colonial do Brasil começou pelo litoral, e não faltam descrições problemáticas da vida levada à beira-mar ao longo dos séculos, sobretudo nas configurações citadinas. Aqueles grandes agrupamentos de pessoas acabaram se impondo sobre o meio, a despeito dele, em vez de se integrarem a ele.
Em comunidades menores, o estabelecimento nessas regiões e a relação com as condições naturais pareceram bem engenhosos e integrados. Múltiplas soluções, convergindo tradições diferentes, foram encontradas para se tentar prosperar diante das peculiaridades do clima, das configurações geológicas do cenário, da piscosidade e da sazonalidade do mar etc. É Gioconda Mussolini, num ensaio sobre a cultura e a vida social no litoral brasileiro, quem comenta:
“[...] os fatores geográficos, que ora constituem elementos de atração, ora elementos de repulsão ao homem, contribuíram grandemente para criar toda uma variação nas densidades de população dos grupos litorâneos, na sua morfologia social, nas formas de ocupação do solo e utilização dos recursos naturais, na sua fixação ou mobilidade”.
Mas tanto ela quanto Borges Schmidt reconhecem o peso do fator humano na equação, apontando para os modelos de estabelecimento de pessoas e exploração da terra e dos recursos naturais, sobretudo o binômio comércio x subsistência, especialmente aplicados à lavoura e à pesca, como pontos importantíssimos a serem considerados. Seja na análise do sucesso e do impacto dessa radicação humana em determinado local, seja no desvelar das suas estruturas culturais, ligadas tanto às condições ambientais quanto aos repertórios anteriores desse ou daquele agrupamento.
E é o fator humano diante do ambiente, levando-o sempre em conta, observando-o, respeitando-o, sem querer dobrá-lo, que propicia essas engenhosas soluções que mencionamos; estratégias que integram algumas culturas que hoje sobrevivem a despeito da planificação contemporânea das formas de vida.
É consenso que, entre as culturas caiçaras, desenvolveu-se uma capacidade notável de leitura dos ambientes nos quais elas estão inseridas, uma sensibilidade com ligação direta àquela dos povos originários, e que possibilitou o estabelecimento de comunidades, o desenvolvimento de práticas de subsistência – muitas delas com potencial econômico, aliás –, e o florescimento de repertórios culturais diretamente ligados àquele contexto à beira-mar.
Além da pesca não-predatória, praticada ainda através de alguns métodos sustentáveis, um exemplo material singelo, mas eloquente, dessa “comunhão” entre os agrupamentos humanos e o ambiente litorâneo é o da canoa caiçara. Sendo feita de um tronco só, caracterizada, portanto, como canoa monóxila, ela depende diretamente das condições da árvore a ser talhada – e, por isso, dispensa, por costume, os instrumentos tradicionais de medição. O tronco, muitas vezes já caído na mata, ainda roliço, é que determinará as medidas da canoa, respeitando-se uma proporção consolidada pela tradição entre o material disponível e o resultado final adequado para a navegação. Para que não se corra o risco de se terminar com uma canoa “maluca”, sem estabilidade.
Nota-se, assim, que a medida final da canoa já está prescrita na árvore ainda em estado bruto, dispensando-se os aparatos usuais de medição. Tradicionalmente, os mestres do feitio, cuja experiência assegurava o sucesso da empreitada, usam apenas um cipó fino encontrado na mata, ou mesmo um barbante, para obter as medidas e aplicar as proporções adequadas.

A título de nota, vale dizer que Bruno Brito, fundador e Diretor Institucional do Arado, a partir de pesquisas desenvolvidas em seu Mestrado e Doutorado, nomeou como “Sistemas Vernaculares de Medição” esse conjunto de práticas, comuns no imaginário construtivo de comunidades indígenas, caipiras, caiçaras, caboclas, quilombolas e sertanejas, que mobilizam o mundo ao seu redor como parâmetro, respaldados pela eficácia comprovada na tradição. E isso não se restringe ao âmbito brasileiro, sendo possível observar métodos afins ao redor do planeta no decorrer dos séculos, muitos que ainda sobrevivem em algumas comunidades.
Ao entalhe da canoa, associa-se também um repertório particular de ferramentas, como o enxó-goiva, um instrumento cortante e de punho curto para movimentos rápidos e repetitivos, geralmente para desbastar uma peça de madeira e obter uma forma côncava, para o entalhe de uma embarcação, sim, mas também de um pilão, uma gamela, ou qualquer outra peça curvilínea de carpintaria.
É uma ferramenta com raízes no mundo ibérico que, na realidade caiçara, dialoga com princípios indígenas de trato da natureza para a obtenção, o desenho e a realização de aparatos cotidianos – muitos que antes eram produzidos por instrumentos líticos, em pedra, ou simplesmente pelo uso do fogo – como os há pouco citados, resultando numa vida material particular, mas tributária de raízes culturais diversas e constitutivas do Brasil. Trata-se, assim, de uma peça que pode ser caracterizada como “neotradicional”, ou seja, que é parte de um sistema ou um repertório de conhecimento que apresenta elementos de sistemas tradicionais – no caso, os originários – e de outros mais recentes ou emergentes.
E, como não poderia deixar de ser com algo que tanto nos inspira, esse universo caiçara também ganhou feições gráficas em dois lançamentos do Arado: os cartazes Glossário Caiçara e Safra da Tainha.
Da produção de instrumentos fundamentais a tal modo de vida à pesca artesanal de uma espécie de peixe significativa que está para o caiçara assim como o milho está para o caipira. Homenagens singelas a essa porção rural à beira-mar que também vibra história e cultura brasileiras.
Referências bibliográficas
BRITO, Bruno. Uma braça e dois palmos. Dissertação de Mestrado. São Paulo: Instituto de Artes da UNESP, 2018.
_____. Duas serras e um rio. Tese de Doutorado. São Paulo: Instituto de Artes da UNESP, 2023.
DIEGUES, Antonio Carlos; MOREIRA, André de C. (org.). Espaços e recursos naturais de uso comum. São Paulo: NUPAUB-USP, 2001.
FREYRE, Gilberto. Um brasileiro em terras portuguesas: introdução à uma possível luso-tropicologia acompanhada de conferências e discursos proferidos em Portugal e em terras lusitanas da Ásia, da África e do Atlântico. Rio de Janeiro: José Olympio, 1953.
MUSSOLINI, Gioconda. Ensaios de antropologia indígena e caiçara. Rio de Janeiro: Paz & Terra, 1980.
NÉMETH, Peter S. O feitio da canoa caiçara de um só tronco. São Paulo: [s. n.], 2011.
SCHMIDT, Carlos B. Colonização do litoral. Boletim de Agricultura, São Paulo, 1934, p. 611-647.











Essa grande interpretação de Dércio Marques, se faz cama musical para essa bela manchete rural.
https://youtu.be/8VDMwUu3LME?si=nB6vLa0BFMpjBE3P