O passado rural do samba
Dos terreiros às favelas, dos batuques ao carnaval
Antes de tudo, é preciso dizer: samba não é um só, são muitos. Em ritmo, verso, letra, harmonia e melodia, bem como nas trajetórias específicas das suas regiões de formação e desenvolvimento, com variedades próprias de manifestação musical e dançante.
A própria palavra “samba”, cujas hipóteses etimológicas passam por diversos idiomas de Angola, como o quioco, o quicongo e o quimbundo, tem um leque semântico amplo. Em seu estudo do samba rural paulista, de 1937, Mário de Andrade (1893-1945) – sim, aquele mesmo! – sublinha que, na terminologia por ele observada na cidade de São Paulo e em Pirapora do Bom Jesus,
a palavra samba tanto designa todas as danças da noite como cada uma delas em particular. Tanto se diz “ontem o samba esteve melhor” como “agora sou eu que tiro o samba”. A palavra ainda designa o grupo associado pra dançar sambas. O dono-do-samba de São Paulo me falou que este ano “o samba de Campinas não vem”. E outros acrescentaram que a qualquer momento devia chegar a Pirapora “o samba de Sorocaba”.
Uma variedade de sentidos também partilhada além do contexto paulista e que ecoa até os dias de hoje, ao lado dos diversos tipos de sambas em si.
Outro a contribuir com a divulgação dessa ampla semântica foi Luís da Câmara Cascudo (1898-1986), em seu Dicionário do Folclore Brasileiro, de 1954. No verbete “samba”, este é definido tradicionalmente como “baile popular urbano e rural”, “dança popular em todo o Brasil”, “dança de roda” etc., remontando sempre ao semba de Luanda, nome dado à dança de umbigada, e à noção de “batuque” enquanto movimento corporal, não só percussivo. Assim, do dançar e do festejo, a transposição do nome “samba” para o gênero musical desenvolvido no Brasil a partir de influências diversas, como o lundu, o maxixe e os batuques do Congo e de Angola, se deu a partir do século XIX, com mais destaque nas primeiras décadas do XX, segundo o folclorista potiguar.
Dito isso, ao contemplarmos os caminhos que levaram o samba ao carnaval, festa essa entre as maiores, se não a maior do nosso país, encontramos trajetórias de pessoas, crenças, cantos e danças que partem de diferentes sertões, antes de desembocarem em novos terreiros, roças e centros urbanos, como Rio de Janeiro e São Paulo. Assim, para elas, abramos alas!
Das terras do Velho Chico aos vales e planícies do Sudeste
Os batuques que antecedem o samba contemporâneo são incontestavelmente negros. Além disso, é preciso sublinhar que eles são mais antigos que os espaços citadinos no Brasil. Antes que chegassem às cidades em expansão, foram esses locais que relegaram tais manifestações às áreas rurais, mantendo-as afastadas, especialmente durante os movimentos de transformação da vida urbana que almejava “modernidade”, absorvendo cada vez mais influências europeias ao longo dos 1800. Assim, o que queremos retomar neste texto são “reencontros”, ainda que depois de muita andança e muito percalço, entre grupos sociais, repertórios culturais e espaços de manifestação, mais do que a introdução inédita, nas cidades, de algo que seria alheio a elas.
Afinal, não é como se os batuques fossem inteiramente desconhecidos das urbes. Mas é que eles ficaram restritos às populações marginalizadas, de escravizados, ex-escravizados e nascidos livres, gente não-branca, sobretudo, em seus próprios espaços de devoção e de festejo, locais estes de coesão e preservação cultural, bem como de resistência. De modo que havia essa cisão entre bailes urbanos e batuques rurais, entre o salão e o terreiro.
Um excelente indício dessa dicotomia que vinha se cristalizando no século XIX se encontra na edição de 12 de novembro de 1842 do jornal recifense O Carapuceiro – periódico onde, acredita-se, foi impressa pela primeira vez a palavra “samba”, em 1838 –, como enfatiza o jornalista e historiador da música popular brasileira José Ramos Tinhorão (1928-2021). Na “Resposta do matuto à carta do seu compadre Doutor Fagundes acerca dos argumentos do Recife”, texto ficcional em verso publicado naquela edição, sabemos que na capital pernambucana de décadas antes, no alvorecer do Oitocentos:
Essa palavra de baile
Té era desconhecida
Muito menos se sabia
O tal soiré, e partida.
[...]
Aqui pelo nosso mato,
Qu’estava então mui tatamba,
Não se sabia outra coisa,
Senão a dança do samba.
Dicotomia tal que provavelmente se verificou com outras manifestações populares à época, em diferentes lugares.
Mas como é que se está a falar em samba em Pernambuco ao mesmo tempo que se mistura São Paulo e Rio de Janeiro? Bem, aí entram alguns importantes deslocamentos populacionais específicos daquele século, marcantes, de várias formas, país afora, seja tendo-se em vista a ordem escravocrata, a economia agrária do Império, as mudanças de eixo econômico no território brasileiro, o desenvolvimento citadino com suas concentrações demográficas, bem como as transmissões e as transformações culturais.
Recordando-nos um pouco dos ciclos produtivos tradicionais na história nacional, o Brasil imperial assistiu à ascensão das lavouras de café, inicialmente no Vale do Paraíba, entre o Rio e São Paulo, e depois no então chamado Oeste Paulista, nas bacias hidrográficas do Tietê, do Piracicaba, do Itapetinga, entre outras. Essas mudanças atraíram lavradores, latifundiários e, forçadamente, escravizados, o que levou diversas pessoas de locais como Bahia e Pernambuco, onde o cultivo de açúcar apresentava declínio e o protagonismo político regional diminuía, ao que hoje é a região Sudeste. Convém lembrar também da proibição do tráfico interatlântico em 1850, que provocou o fortalecimento do tráfico interno de pessoas no Brasil, contribuindo para a migração forçada dentro do território nacional.
O decaimento do Vale do Paraíba nos anos 1870, por sua vez, diante da ascensão de outras áreas cafeicultoras, fez com que uma série de indivíduos também migrasse para a capital do Império, o Rio de Janeiro, enquanto outros se deslocaram para perto de diferentes cidades em crescimento, como as paulistas Sorocaba, Limeira e Rio Claro. Tudo isso se acentuou ainda mais com a Abolição, em 1888. É uma jornada um tanto quanto simplificada aqui, mas que permite que entendamos panoramicamente o trajeto das pessoas que trouxeram consigo os batuques rurais do Nordeste até os pontos em que o samba ganhou suas feições mais reconhecíveis e se tornou icônico no Brasil contemporâneo.
Sertão & Favelas
Existe um indício interessante dessa movimentação de pessoas no século XIX numa das principais obras da literatura brasileira: Os Sertões (1902), de Euclides da Cunha (1866-1909). Considerado o primeiro livro-reportagem do país, é um mergulho profundo na Guerra de Canudos, ocorrida no interior da Bahia entre 1896 e 1897, e que também provocou o êxodo de pessoas em direção ao eixo Rio-São Paulo.
Pela obra, sabemos do Morro da Favela, próximo ao arraial de Canudos, local estratégico que foi batizado com o nome popular da Cnidoscolus quercifolius – “anônima ainda na ciência”, escreve Cunha, “ignorada dos sábios, conhecida demais dos tabaréus”, os habitantes da região –, uma planta típica da Caatinga, membro da família das euforbiáceas, chamada também de faveleira ou mandioca-brava, cujo fruto é uma cápsula que lembra uma pequena fava, daí a alcunha.
Com a destruição do arraial dos fiéis do beato Antônio Conselheiro (1830-1897) pelo exército brasileiro, vários veteranos de baixa patente das forças, estando de volta ao Rio de Janeiro e aguardando pagamento pelos serviços na Bahia, requisitaram ao Ministério da Guerra permissão para a construção de casas no então Morro da Gamboa – hoje Morro da Providência. Em companhia deles, foram para lá muitos que antes haviam sido desalojados pela demolição de cortiços promovida pela prefeitura. E então o nome “favela” foi pela primeira vez associado a uma comunidade urbana de morro, justamente em referência ao “Morro da Favela” de Canudos, dando início à mudança semântica do termo para o sentido mais conhecido hoje. E isso também nos conta um pouco mais sobre esses trajetos do Nordeste para o Sudeste, e os seus subsequentes reflexos culturais.
> Ouça o álbum Sertão & Favelas, de Zelia Barbosa.
Hilário & Hilária na Pequena África
Dos fluxos no tempo da escravidão às migrações durante a Primeira República (1889-1930), indivíduos como o pernambucano Hilário Jovino Ferreira (1855-1933), mais tarde conhecido como Lalau de Ouro e considerado o primeiro carnavalesco da história, foram para o Rio de Janeiro. Ele se instalou por lá em 1892, no bairro da Saúde, como tantos outros migrantes. Localizado na subida para o Morro da Conceição, era um território “por excelência”, segundo conta o jornalista e biógrafo Lira Neto (1963-), “de rituais africanos, batucadas noturnas e rodas de capoeira”.
Sobre essa região da cidade do Rio e o reflexo de sua efervescência cultural na formação do samba, os escritores Luiz Antonio Simas (1967-) e Alberto Mussa (1961-) explicam que “o contato entre os recém-chegados e os crioulos mestiços e africanos que viviam na zona central e portuária da capital cria as condições que levam ao estabelecimento da comunidade baiana no Rio de Janeiro, na região que vai da Pedra do Sal – no Morro da Conceição – até a Cidade Nova, área que Heitor do Prazeres definiu como a Pequena África”.
Ali, ainda no tempo do Lalau de Ouro, vivia também o baiano Miguel Pequeno (?-?), um facilitador da radicação de conterrâneos na capital federal. E ambos frequentavam os batuques nos fundos do número 174 da rua Barão de São Félix, onde havia um terreiro de Candomblé conduzido por dois também baianos, o babalorixá João Alabá (?-?) e a iaquequerê Hilária Batista de Almeida (1854-1924), a Tia Ciata. Líder comunitária e destacada figura na região da Pequena África na virada do século, sua casa, na rua da Alfândega, era ponto de congregação, convivência e festa, e é simbolicamente considerada o berço do samba carioca, onde também teria sido criada a primeira canção do gênero a ser gravada em disco, Pelo Telefone (1917).
Por essa rede, de Hilário a Hilária, conseguimos vislumbrar a importância das populações deslocadas do Nordeste para o Sudeste, constituindo comunidades de preservação e invenção cultural, calcadas no legado africano transformado no Brasil. Quando inserido na zona urbana portuária do Rio, o batuque rural de raiz predominantemente baiana, tocado pelo contexto e por outras manifestações musicais e culturais, foi a base para o samba carioca contemporâneo, o embalo d’O Maior Show da Terra. Passadas algumas décadas no século XX, esse fenômeno descendente das tradições dos terreiros que haviam sido barradas dos salões, unindo canto, percussão, dança e festa, desceu o morro, conquistou o asfalto e marcou para sempre a cultura brasileira.
“O samba agoniza, mas não morre. Reinventa-se, orbitando entre os signos ancestrais da festa e da agonia. Tributário da grande diáspora africana, soube sobreviver à gramática do chicote e da senzala. Nascido no saracoteio dos batuques rurais, adentrou a periferia dos grandes centros urbanos sem pedir licença. Iniciado nos terreiros de macumba, incorporou-se aos cortejos dos ranchos, blocos e cordões, numa simbiose perfeita com o Carnaval”.
Lira Neto
Samba de bumbo e de viola
Mencionamos no início deste texto os estudos de Mário de Andrade sobre o samba rural paulista. Como indicado, os movimentos de escravizados no século XIX trouxeram pessoas e batucadas para as fazendas de São Paulo, onde essa transposição também se refletiu em dança e música, que guardariam feições próprias, desenvolvendo-se ainda em diálogo com a cultura caipira no decorrer do século XX – até porque a viola era um instrumento partilhado, o terreiro de roça era um espaço em comum e a devoção religiosa sincrética um ponto de encontro.
Não é à toa que, até os primeiros anos de desenvolvimento da música sertaneja, na década de 1930, “modas” e “sambas” ainda eram termos associados aos conjuntos e duplas do gênero que vinham se formando e gravando as primeiras composições com distribuição fonográfica.

Fato é que o samba rural paulista manteve, mesmo com o passar do tempo, traços distintos do que passou a ser emanado do Rio de Janeiro. Segundo observações do autor de Macunaíma, a coreografia, o predomínio da percussão, com a supremacia do bumbo, a dinâmica de pergunta e resposta do canto, entremeando momentos de improvisação, entre outras estruturas, manifestavam-se de modo particular entre os sambadores e sambadeiras. E também dialogavam com companhias de motivos religiosos profundamente enraizadas nas festas comunitárias do interior paulista, como as de Reisado, do Divino Espírito Santo e do próprio Bom Jesus, celebrado em Pirapora.
De modo que o que se conhece hoje como samba de bumbo, remontado às propriedades cafeicultoras do século XIX e aos seus habitantes africanos e afro-brasileiros, foi declarado Patrimônio Cultural Imaterial do estado de São Paulo, bem como Patrimônio Cultural do Brasil pelo IPHAN, reconhecendo-se assim a sua importância histórica e contemporânea enquanto forma de expressão. Forma que preserva e transmite uma memória afro-rural entre famílias e grupos mais alargados, embalando ainda devoções coletivas, procissões em visitação e intercâmbios entre comunidades.

Ainda assim, a tradição é predominantemente, mas não exclusivamente rural, já que suas vertentes, sobretudo a de Pirapora, foram fundamentais para o desenvolvimento do samba paulistano, inclusive em suas manifestações carnavalescas, através dos cordões. Isso graças à formação de comunidades de ex-escravizados, vindos do interior, que se estabeleceram na capital entre o fim do século XIX e começo do XX.
Na saideira deste boletim, enquanto não chega a folia que nos aguarda, deixamos aqui uma canção do grande sambista Geraldo Filme (1927-1995), lenda do carnaval e da comunidade negra da capital paulista, que honra Pirapora e apresenta arranjo, letra e ritmo que evidenciam essas marcas rurais do samba de bumbo.
Geraldo Filme - Batuque de Pirapora
Referências Bibliográficas
ANDRADE, Mário de. O samba rural paulista. Revista do Arquivo Municipal, São Paulo, vol. XLI, p. 37-116, 1937.
CASCUDO, Luís da C. Dicionário do folclore brasileiro. 10ª ed. Rio de Janeiro: Ediouro, 1999.
CUNHA, Euclides da. Os sertões. Rio de Janeiro: Fundação Darcy Ribeiro, 2013.
LIRA NETO. Uma história do samba. Vol. I: as origens. São Paulo: Companhia das Letras, 2017.
MOURA, Roberto. Tia Ciata e a Pequena África no Rio de Janeiro. 2ª ed. Rio de Janeiro: Secretaria Municipal de Cultura, 1995.
MUSSA, Alberto; SIMAS, Luiz Antonio. Samba de enredo: história e arte. 5ª ed., rev. e ampl. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2025.
NAPOLITANO, Marcos; WASSERMAN, Maria Clara. Desde que o samba é samba: a questão das origens no debate historiográfico sobre a música popular brasileira. Revista Brasileira de História, São Paulo, v. 20, n.º 39, p.167-189, 2000.
SANDRONI, Carlos. Feitiço decente: transformações do samba no Rio de Janeiro, 1917-1933. Rio de Janeiro: Zahar, 2001.
SIMAS, Luiz Antonio. O corpo encantado das ruas. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2019.
TINHORÃO, José R. Os sons dos negros no Brasil: cantos, danças, folguedos: origens. 2ª ed. São Paulo: Editora 34, 2008.








Sensacional e riquíssimo texto!
Nada melhor que começar o domingo sendo um pouco menos ignorante. Que texto maravilhoso! Amei a indicação da música também. 👏🏻👏🏻