O cochilo da tarde
Sobre a “sesta”, a pausa que já foi sagrada no Brasil de outros tempos
“Tirar uma pestana” para “fazer o quilo”. Talvez essas expressões não lhe sejam estranhas. Ambas povoam o vocabulário popular brasileiro, mais ou menos partilhado entre as regiões do nosso país, e geralmente indicam o bom e velho cochilo após o almoço, para fins de digestão, sobretudo.
Cochilo esse ainda mais tentador durante o verão, e quase imprescindível durante as férias. No clima de começo de ano, enquanto tentamos engatar o corpo e a mente de volta à rotina, quão sedutora ainda parece aquela moleza que dá na gente depois de almoçar…? Bem, mas voltemos aos dizeres populares.
O “quilo” e a “pestana” despertam imediata curiosidade, especialmente as suas origens etimológicas: o primeiro vem de kilu, do quimbundo, que significa “sono”, sem uma relação específica com os processos estomacais, portanto; já a segunda tem uma trajetória mais opaca e pode ser que reapareça neste boletim em outra ocasião.
Seja como for, ambas as expressões apontam para a prática que, há não muito tempo atrás, era conhecida no Brasil como “sesta”. A soneca restauradora após a refeição do meio-dia. E, afinal, de onde vem esse hábito, que é tão sutil, mas tão marcante?
Já no primeiro dicionário impresso em língua portuguesa, das primeiras décadas do século XVIII, compilado pelo religioso e lexicógrafo franco-inglês Raphael Bluteau (1638-1734) e lançado em Coimbra, encontramos “sêsta”, com essa acentuação, definida da seguinte maneira: “chamou-se assim a Hora Sexta, que é o meio-dia; e quer dizer o descanso que particularmente nas terras quentes se toma depois do jantar”. Sabemos, então, que a associação do termo ao costume de repousar no começo da tarde já existia naquela época.
E um detalhe: “jantar” era mesmo como se chamava a refeição do meio-dia, que hoje temos por “almoço”. Outros tempos, outro vocabulário.
Havia também, nos anos 1700 e pouco, o verbo “sestear”, que significava “dormir a sesta”, ou passar as horas de maior calor do dia à sombra, resguardado das agruras do sol. Sendo assim, parece que, para sabermos mais sobre as raízes dessa prática, precisamos olhar para um momento mais recuado no tempo e para outro lugar que não o Brasil ou Portugal.
Da mesma forma, explica-se no espanhol a derivação de siesta da expressão em latim que correspondia ao meio-dia, segundo as horas canônicas, divisão de tempo cristã medieval estabelecida pelas regras monásticas de São Bento: Matinas, Laudes, Terça, Sexta, Nona, Vésperas e Completas. Sendo a Sexta a mais quente do dia, passou-se a cultivá-la como momento de repouso, especialmente fora dos círculos eclesiásticos.
Essa mudança semântica, de um momento reservado à rotina específica de orações devocionais para uma janela de descanso, é marcada pela aparição do termo, carregando o segundo sentido, em documentos hispânicos a partir do século XIII. O que se deu de forma ainda mais frequente do XVI em diante. Assim, é seguro supor que a siesta foi introduzida em Portugal, da vizinha Castela, atual Espanha, já como esse repouso durante as horas mais quentes do dia.
Parece certo que o costume tenha chegado até nós através dos portugueses, vizinhos dos espanhóis e, por um período de 60 anos, parte da mesma monarquia, durante a chamada União Ibérica (1580-1640). Aliás, é importante lembrar que as fronteiras nacionais não impediram intercâmbios ou zonas de mesclas culturais na Península – como se vê entre os próprios estados brasileiros hoje, por exemplo –, o que explica essa adoção de costumes de repouso mantendo um nome bastante próximo, com a mesma origem etimológica, apenas aportuguesado, quiçá herdado do idioma galego: “sesta”.
Algumas etnias indígenas tradicionalmente cultivam o sono diurno de forma semelhante, mas esses hábitos parecem ter sido menos influentes sobre a população em geral – com exceção do seu leito de repouso por excelência, a rede de dormir. Os elementos mais impactantes nessa balança parecem ficar claros pela forma como o cochilo do meio-dia – “cochilo” que, aliás, parece derivar de kushila, do idioma quicongo – é referido na documentação sobre o Brasil dos séculos XVIII, XIX e XX.
E, por aqui, a sesta foi, por um bom tempo, praticamente a regra!
O comerciante inglês John Luccock (1770-1826), que esteve por estas bandas entre 1808 e 1818, tendo conhecido diferentes partes do país, escreveu e publicou um relato de memórias, o Notas sobre o Rio de Janeiro e partes meridionais do Brasil, no qual descreve bem o repouso típico das gentes livres que aqui habitavam no começo do século XIX: “após um repasto apressado e sem cerimônia, pelo meio-dia, retiravam-se para fazer a sesta, tal como todos os demais no Brasil. Em doce e voluptuoso abandono, deixavam transcorrer a parte mais cálida do dia, voltando, à tarde, às suas visitas e outras diversões, de espíritos refeitos e nervos retemperados”.
Ele não só menciona a sesta algumas vezes ao longo de sua narrativa, mas também tece considerações sobre a maneira como os seus compatriotas ingleses e outros estrangeiros eram afetados pelo ambiente tropical e acabavam aderindo à mesma prática. “Quando chegam […] com saúde” ao Brasil, particularmente ao Rio de Janeiro, ele conta, “são a princípio pouco afetados pelo calor, esforçam-se mais e necessitam de menos repouso que os nativos. Do segundo ou terceiro ano em diante, já participam mais da lassidão geral, parecendo então precisar do repouso da tarde tanto quanto os que a ele se acostumaram desde que nasceram”.
Apesar de atribuir ao calor a “lassidão”, a “moleza” quase natural do povo, Luccock ainda assim considera o clima do Brasil agradável, já que os bons ares e águas do país serviam para balancear suas altas temperaturas.
Outro a registrar, mais ou menos na mesma época, suas observações a respeito do costume de sestear, em texto e imagem, foi o pintor francês Jean-Baptiste Debret (1768-1848). Além de relatar o momento da “sexta hora”, discorre sobre ela como um marcador importante da rotina das pessoas livres no Brasil do século XIX:
Esse repouso necessário ao brasileiro termina por um sono prolongado, de duas ou três horas, a que se dá o nome de sesta. [...] O brasileiro deixa a mesa no momento em que a atmosfera, já aquecida por seis ou sete horas de sol, estende sua influência abafadora até o âmago das habitações. [...] Com a boca abrasada pelo estimulante dos temperos e literalmente queimada pelo café fervendo, já semi-desvestido, procura quase em vão em seus cômodos a sombra e o descanso, pelo menos durante duas ou três horas; adormecendo afinal, banhado de suor, acorda lá pelas seis horas da tarde, quando principia a viração. Com a cabeça um pouco pesada, cansada da digestão, manda trazer um enorme copo de água que bebe, enxugando lentamente o suor que lhe orvalha o peito. Retomando pouco a pouco os sentidos, escolhe uma agradável distração que lhe encha o tempo até o cair da noite, hora em que, feita a ‘toilette’, prepara-se para receber visitas ou sai a passeio.
O termo “sesta” e o costume correspondente permaneceram vivos no país ao longo do século XX. No entanto, as mudanças de populações rurais para os ambientes urbanos, e a incontornável adesão de trabalhadores à cada vez mais acelerada labuta citadina, industrializada e normatizada, fez com que as tradicionais horas de descanso acabassem minadas pela rotina friamente cronometrada pelo relógio mecânico.
Custódio de Viveiros (1889-1965), sujeito ligado ao abjeto Movimento Integralista, escreveu em 1935, no Boletim do Ministério do Trabalho, Indústria e Comércio, de forma bastante crítica, que os brasileiros queriam “viver no século XX, usufruindo os benefícios da vida moderna, sem despender esforço condizente com os imperativos das competições fatais”. Ele critica, inclusive, o hábito de “dormir a […] sesta, bem espichado numa rede fresca”, o que classificou como “fora, completamente, dos métodos científicos que outorgam as facilidades pretendidas”, por demonstrar uma indisposição de gasto de “energia vital”, contrária aos efervescentes ideais do progresso, bem como aos da corrente política a que se aliava aquele indivíduo. “Não é absolutamente possível conciliar a comodidade, a preguiça mesmo, com as delícias de uma era elétrica”, declara ele.
É um exemplo circunscrito, mas bastante eloquente, dos valores então vigentes e das transformações urbanas e no mundo do trabalho, com inevitável impacto, também, no ambiente rural, ao longo do século XX. Se dependesse de sujeitos como Viveiros, só a gataria teria algum descanso na cidade – isto é, caso a molecada não saísse em busca de couro para tamborim.
Apesar dessa virada urbano-industrial, a sesta não desapareceu de todo da paisagem brasileira. Seguiu associada a espaços de repouso que não o quarto, a cama ou as velhas espreguiçadeiras, isto é, à varanda, a rede, a cadeira de balanço, onde as “pestanas” e as “sonecas digestivas” continuaram cultuadas em algumas localidades. “Com a rede, mantém-se (outra raridade) outro traço folclórico – a sesta, comum nas cidades interioranas e estações balneárias ou de repouso, onde os ponteiros do relógio não castigam o homem, governando-lhe a vida”, escreveu em 1964 Alceu Maynard de Araújo (1913-1974), estudioso bem conhecido e admirado por aqui.
Nem mesmo Albert Einstein (1879-1955), quando no Brasil em 1925, escapou do repouso pós-almoço numa rede, ainda que a estrutura não lhe tenha parecido muito compatível. Numa visita ao médico Antônio da Silva Mello (1886-1973), segundo conta o próprio doutor, com um pouco de sarro, o ilustre físico alemão
passou à varanda armado de um grande charuto e, vendo uma bela rede boliviana, aberta e convidativa, procurou nela deitar-se para uma pequena sesta. Foi impagável e ridículo ao mesmo tempo! O grande gênio, então bastante barrigudo, ficou em posição tão falsa, tão dura e desajeitada, que teve de levantar-se e voltar para a cadeira. Não conseguiu ficar deitado senão alguns momentos, achando a posição incômoda, insuportável. O seu corpo devia estar por demais habituado às condições de vida do homem civilizado, seguidas por um extraordinário número de gerações.
Hoje, a prática não só persiste tradicionalmente entre os espanhóis, bem como entre os japoneses, que a chamam de hirune. E pesquisas científicas propõem efeitos positivos ligados ao hábito – enquanto cochilo breve, sobretudo. Cita-se, particularmente, o restabelecimento do estado de alerta e benefícios de longo prazo à saúde cerebral. De todo modo, são esforços investigativos em andamento, que abordam a questão a partir de pontos diferentes.
O que não se pode negar é a longeva importância histórica desse costume para as sociedades ibéricas, que, por sua vez, o legaram ao Brasil, onde ele tomou contornos próprios e se tornou algo de uma satisfação tremenda para aqueles que o praticaram e os que, ainda hoje, ainda podem fazê-lo. Não obstante a “sesta” ter deixado de ser referida por esse nome e ter perdido a sua ubiquidade e o seu caráter quase sagrado na rotina brasileira.
Que bom seria se essa breve desacelerada fosse um hábito tão comezinho e amplamente partilhado quanto desejar “bom dia”, não é?!
“[...] feita a folga que me vem, e sem pequenos dessossegos, estou de range rede. E me inventei neste gosto, de especular ideia” - Grande Sertão, Veredas, Guimarães Rosa.
Referências bibliográficas
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BLUTEAU, Raphael. Vocabulario portuguez & latino. Coimbra: Collegio das Artes da Companhia de Jesu, 1712-1721.
DEBRET, Jean-Baptiste. Viagem pitoresca e histórica ao Brasil. T. I, vol 1 e 2. São Paulo: Livraria Martins, 1940.
LAMATA, Paula A. Lexicología y lexicografía: una aproximación a siesta. In: MERÍN, Mercedes Q.; SÁEZ, Julia S. (ed.). Historia e historiografía de los diccionarios del español. Valencia: Universidad de Valencia, 2019, p. 179-194.
LUCCOCK, John. Notas sobre o Rio de Janeiro e partes meridionais do Brasil. Tomadas durante uma estada de dez anos nesse país, de 1808 a 1818. São Paulo: Livraria Martins, 1942.
MELLO, Antônio da S. O uso da rede, do berço e da cadeira de balanço, e as suas vantagens (1957). In: CASCUDO, Luís da C. Rede de dormir: uma pesquisa etnográfica. São Paulo: Global, 2012.
QUINTÃO, José Luís. Gramática de kimbundo. Lisboa: Edições “Descobrimento”, 1934.
ROSA, João Guimarães. Grande Sertão, Veredas. 21ª ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2015.
VIVEIROS, Custódio de. Estatística certa - equilíbrio seguro. Boletim do Ministério do Trabalho, Indústria e Comércio. Rio de Janeiro, n. 14, a. II, out. 1935, p. 355-360.










Morar no interior é não precisar pedir licença ao sestear que a vida nos prega os olhos.
que edição INCRÍVEL!